A concha

Estou fechado

Trancado

E sinto-me aliviado

 

Esta cerveja

E um nectar

Que destroi o medo

 

Este livro que percorro

E um calmante

Que me dá socorro

 

Estas imagens que navegam o meu olhar

São como o silêncio

No fundo do mar

 

Estas notas a flutuar

São como pombas

A sobrevoar

 

Este violão

É como segurar uma criança

Pela mão.

 

As portas estao fechadas

As janelas estao tapadas

 

Nao quero sentir outra presença,

nem ver faces conhecidas.

Só quero ficar aqui deitado

A lamber as minhas feridas.

Amigos

Não tenho nada pra escrever
Mas isso não quer dizer
Que não tenha nada pra fazer
Tenho andado ocupado,
E não ando inspirado.

As emoções
Que me fazem escrever
Estão satisfeitas, por assim dizer
A solidão que me faz enlouquecer
Começou lentamente a desaparecer.

Tenho-me concentrado em cada momento
E não divagado com o meu pensamento.
Acho que isso me tem ajudado a ser feliz
Coisa que eu sempre quis.

Passear e falar com amigos
Abrir o meu coração
Era o que eu precisava
Para esquecer a depressão
E expulsar a escuridão.

Não posso ficar em casa
Sem nada para fazer
Pois já sei que vou enlouquecer
Pensar no que passou e no que está pra vir
Reflectir
Sem chegar a nenhuma conclusão.
E é isso que me causa depressão.

Mas agora estou melhor.
E espero que assim vá durar
Há coisas que ainda quero mudar
Mas lentamente.
Não posso pensar demasiado
Senão fico doente.
Ás vezes ando irritado
E tenho que ser mais paciente.

Tenho gente à minha volta
Que me ajuda a viver
É por eles que continuo a escrever
E é a eles que quero agradecer.

Quero-lhes dizer o quanto eles me fazem falta.
O quanto adoro estar com essa malta.
O quanto preciso dessa amizade
E o quanto aprecio que me digam a verdade.

O quanto valorizo os minutos e as horas
As esperas, as demoras
As discussões ao sabor de uma Imperial
As agressões sem magoar, ou fazer mal.

O quanto é bom ouvir sinceridade
O quanto é bom sentir amizade
O quanto sabe bem sentir a confiança
Rir, e sentir que sou criança.

Eles sabem quem são
Eles sabem que não preciso falar
Eles sabem ler as entrelinhas
Na minha forma de me expressar.

As palavras às vezes não chegam
Para expulsar o que me vai aqui dentro.
Mas eu tento.
Só espero que eles percebam

Tentativa

Sinto as moscas a voar

A rodear

A podridão da minha alma

Eu tento

Mas não aguento

Não consigo manter a calma

 

Sou volátil

E de forma fácil

Fico preso nesta sala escura

Eu tento

Mas não aguento

Não encontro uma cura

 

O rastilho acende

E de repente

Explode este dor insuportável

Eu tento

Mas não aguento

Não consigo ficar estável

 

Eu ponho cadeados e mais cadeados

Deixar os demónios bem trancados

Bem longe da minha mente

E eu tento

Mas não aguento

Mantê-los assim pra sempre

Tento ser positivo

Ajudar o meu amigo

Para libertar-me desse pensamento

Eu tento

Mas não aguento

Não afasta o sofrimento

 

Não adianta fugir, ou esconder

Nem tentar desaparecer

Pois sempre me vão encontrar

Eu tento

Mas não aguento

E começo a desesperar

 

Eu subo as escadas do paraiso

E faço tudo o que é preciso

Para manter a minha paz

Eu tento

Mas não aguento

Não deixo de ser só um rapaz

 

As lições são duras e cruéis

São cobras, cascavéis

Que ferram e não largam

Eu tento

Mas não aguento

E estas dores não acabam.

Eu quero ir à luta

Mas nunca fiz a recruta

Não tenho armas para combater

Eu tento

Mas não aguento

E só me apetece morrer.

 

Nem livros, nem músicos

Nem momentos únicos

Me salvam desta guerra

Eu tento

Mas não aguento

Viver mais nesta terra

 

Nao sei se é ódio ou raiva

Mas não consigo manter a calma

Só quero gritar

Eu tentei

E tentei

Mas não aguento mais

Hoje tudo vai acabar.

Matutinar

Aqui vou eu no comboio
Com o escuro lá fora
A ouvir Rui Veloso

Ainda tou meio rameloso
Não tou acostumado a madrugar
Nem a tar acordado a esta hora.

Bom, mas vamos embora
Nao há-de ser nada
E até me sabe bem
Levantar de madrugada.

Só tenho fome
Nao comi nada em casa
Apetece um croissant e um galão
Mas nada tá aberto a esta hora
Filhos de um cabrão.

Vou ter que me aguentar
Até daqui a hora e meia
Não jantei nem fiz ceia
Com preguiça de cozinhar

Mas tou bem gordinho
Á fome nao vou morrer

Trouxe um cafézito pra beber
Num tuperware de litro
Para não adormecer
Enquanto tou a trabalhar
E tou quase a chegar.

Tenho dito

Pão com chouriço

Ora vamos lá a isso…
desde ontem que só penso
No pão com chouriço
Daquele cheirinho
Quando ele sai quentinho do forno

E um Sumol de laranja
Aqui onde tou não se arranja
Nem nada parecido
E os pãezinhos… não são a mesma coisa
Vou abrir uma padaria
com pãozito português
Não percebo nada do assunto
Mas espero ter freguesia
Que dê lucro ao fim do mês.

Não percebo muito do negócio
Mas vou fazer o que posso
Nem que tenha de arranjar um sócio
Que perceba da matéria.
Acho que ia ser
Um bom investimento
Mas de momento…
Não tenho guito
Pra tal coisa
E tenho dito
Já chega de poema.

Mau olhado…

Epá, dói-me a cabeça…
Mas que coisa é esta?
Acho que tenho mau olhado.

Não, não estou pedrado
Nem com alcaria.
Mas que porcaria…

E não tenho comprimidos pra tomar…
Acho que preciso de descansar…
Deve ser isso.

Vou mas é dormir
Amanhã é dia de bulir…