Inanimado

Fui tão estupido

Passei do estado solido

ao estado liquido

derretido pelo solo

 

Nao me chega o teu consolo

Sou um objecto

Inanimado

Segui o meu trajecto

Mas agora o fim

Esta aqui ao lado

 

Estou acabado

Por ser um idiota

Assim que passei a porta

Apercebi-me que sou so um coitado

Que nasceu com a mente torta

Idiota

Pisado pela vida

Sempre a procura de uma saida

Mas sem sequer achar a entrada

Com uma mente perturbada

Por sentimentos poderosos

Horrorosos

E permanentes

Como uma dor de dentes

Que te cobre toda a face

E que para que a dor passe

So mesmo com extracção

Assim fizeram ao meu coração

 

Como uma maça que rola

Para longe da arvore

Onde nasceu

Assim sou eu

Nao sei onde por a semente

Para que algo floresça decentemente

 

Sou uma rocha

Que cai sobre uma flor

Que desabrocha

Cortando-a pela raiz

Mas sem me aperceber do que fiz

 

Sou a onda do mar

De quem toda a gente gosta

Mas que fez a pobre baleia

Dar a costa

 E morrer na areia

 

Sou o vento

Que ateia a chama

Que varre toda a vida

Que havia na Savana

 

Sou a inocente borboleta

Que no leve bater das suas asas

Causa ventos e tempestades

Que destroem arvores e casas

 

Sou a gota de agua

Que caindo no sitio errado

Faz transbordar o rio

E deixa tudo alagado

 

Sou uma migalha de pao

Que se engana no caminho

E ao causar uma pequena afliçao

Faz parar o coração

Do pobre velhinho

 

Sou uma pequena vespa

Que cumprindo o seu dever

Espeta o seu ferrão

Fazendo entao

Com que as outras venham ver

O que acabou de acontecer

E que para se proteger

Acabam por atacar

A criança que so queria ver

 

Sou um animal faminto

Que seguido o seu instinto

So tenta sobreviver

E mata seja o que for que lhe aparecer.

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A tesoura

Sou uma tesoura

Feita para cortar

Mas que partiu a lamina

Quando a tentavam amolar

Criada para destruir

Ou reconstruir

Depende da intenção de quem me possuir

Nao tenho vontade

que seja minha

e é verdade,

que nunca tive liberdade

para cortar o que quisesse

mas mesmo que tivesse

nao saberia o que fazer com ela

fazer cortinas

para uma janela?

Ou um vestido

Para uma donzela?

Rasgar papel, cortar tela?

Ou cortar unhas das mãos?

Ser ferramenta de um um artesão?

Ou de um alfaiate?

Criar, fazer arte?

Ou destruir, matar-te?

 

Jogada no fogo

Ja nao sou o que era

Pois o calor que me consome

E se apodera

Desforma o que eu sou

Foi o destino que ditou que acabasse assim

Ja que parti a lamina

É o fim.