Madrugadas…

É um sufoco
Ver-te por tão pouco
tempo.
 
E não poder tocar-te
Faz-me odiar-te.
Este sentimento
Preso aqui dentro
Deixa-me louco.
 
Adoro falar contigo
Diretamente do coração
Sem sentir pressão.
Sem perigo
De ser mal entendido.
 
Falamos de coisas vulgares
Que não interessam a ninguém
Mas sabe bem
Soltar a loucura
E se me perguntares
Seja o que for
Eu respondo
Sem vergonha ou pudor
 
Mas depois, 
dizemos adeus.
Tu para os teus lençóis
Eu para os meus.
 
Tu beijas-me na cara
E o meu coração… não pára
 
E esse momento
É tao precioso
Que me sinto vaidoso.
 
Mas é tudo.
E lá no fundo
Tu sabes o que sinto
E o que penso.
 
Mas não te censuro.
E depois de um momento
Ja não me faz diferença
Ter ou não
a tua presença.
 
O tempo passou
O peito acalmou
 
Hoje vou sair
Dançar até cair
 
E espero, quando me for deitar
Não ser em ti que vou pensar.
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Matutinar

Aqui vou eu no comboio
Com o escuro lá fora
A ouvir Rui Veloso

Ainda tou meio rameloso
Não tou acostumado a madrugar
Nem a tar acordado a esta hora.

Bom, mas vamos embora
Nao há-de ser nada
E até me sabe bem
Levantar de madrugada.

Só tenho fome
Nao comi nada em casa
Apetece um croissant e um galão
Mas nada tá aberto a esta hora
Filhos de um cabrão.

Vou ter que me aguentar
Até daqui a hora e meia
Não jantei nem fiz ceia
Com preguiça de cozinhar

Mas tou bem gordinho
Á fome nao vou morrer

Trouxe um cafézito pra beber
Num tuperware de litro
Para não adormecer
Enquanto tou a trabalhar
E tou quase a chegar.

Tenho dito

Pão com chouriço

Ora vamos lá a isso…
desde ontem que só penso
No pão com chouriço
Daquele cheirinho
Quando ele sai quentinho do forno

E um Sumol de laranja
Aqui onde tou não se arranja
Nem nada parecido
E os pãezinhos… não são a mesma coisa
Vou abrir uma padaria
com pãozito português
Não percebo nada do assunto
Mas espero ter freguesia
Que dê lucro ao fim do mês.

Não percebo muito do negócio
Mas vou fazer o que posso
Nem que tenha de arranjar um sócio
Que perceba da matéria.
Acho que ia ser
Um bom investimento
Mas de momento…
Não tenho guito
Pra tal coisa
E tenho dito
Já chega de poema.

Mau olhado…

Epá, dói-me a cabeça…
Mas que coisa é esta?
Acho que tenho mau olhado.

Não, não estou pedrado
Nem com alcaria.
Mas que porcaria…

E não tenho comprimidos pra tomar…
Acho que preciso de descansar…
Deve ser isso.

Vou mas é dormir
Amanhã é dia de bulir…

Portugal, Portugal…

Ai Portugal, Portugal
Penso em ti todos os dias
Deste-me tantas arrelias
Que tive de emigrar.

Ainda penso em praí voltar
Mas como as coisas vão…
Tu vais-me desculpar
Mas agora não vai dar

Levar uma vida de cão?
Aqui não é muito melhor
Mas pelo menos, e agora que penso nisso
Quando levo a mão ao bolso
tenho sempre uns trocos
pra um pão com chouriço.

Ainda me lembro há 5 anos
Tinha que contar os tostões
Pra meter gasóleo e ir trabalhar
Andava sempre a arriscar
a ficar a penantes.

Mas isso era dantes
graças a Deus…
nem dinheiro tinha
pra mudar os pneus.

Foi até rebentar…
Nem me quero lembrar
O cagaço que apanhei.

Mas adiante.
Quero-te bastante.
Tens tanto para dar
É preciso acreditar
E ter força de vontade.

Estamos mal, é verdade
E também é verdade que não percebo muito do assunto.
Mas já lá vai o tempo
Em que era pão com presunto
Ao almoço e ao jantar.
Política? Pois, isso é a pior parte.
Mas não se pode desanimar.
Não somos tão desgraçados como pensamos.

Já lá vão os anos
da época dos descobrimentos.
Dos tempos do Vasco da Gama.

Agora? É tempo da Joana
Do Manel e do Joaquim
Da Maria e do Alberto
Do Bernardo e do Roberto.
A até da Prantilhana.

Vamos lá, minha gente.
Não se pode desanimar.
Já lá vai o tempo do Salazar.

Somos uma nova geração.
É preciso uma nova revolução.

Deixem de se encostar.
o dinheiro não vem do céu.
É preciso trabalhar, e não ficar de papo pro ar.
Á espera do subsídio.

E é preciso pagar impostos.
Custa a todos, não só a ti.
A chico-espertice só tras problemas.

Dilemas… dilemas…
Todos nós os temos.
Mas temos de estar dispostos
A dar, mais do que receber.

Um dia há-de ser melhor
e quando esse dia vier,
seremos novamente
esse povo, essa gente
que a história não vai esquecer.